Antes de tudo…

Para compreendermos quais as características das atividades transdisciplinares na escola, precisamos entender e diferenciar os conceitos multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade!

Para isso, precisamos entender primeiro o que é disciplina.

Você tem idéia do que vem a ser disciplina? Quando utilizamos essa palavra em nosso cotidiano escolar? Já ouviram algum professor falar que tem problemas com alunos indisciplinados?

Disciplina é uma palavra que está comumente associada à imposição de uma maneira de comportamento. Quem não se comporta desta forma é indisciplinado.

Outra utilização desta mesma palavra está associada às diferentes áreas do conhecimento. Temos no currículo escolar diferentes disciplinas. Muitas vezes encontramos para uma mesma área do conhecimento várias disciplinas. A Matemática, por exemplo, está nos currículos dividida em disciplinas como álgebra, geometria, etc.

Organizamos os conhecimentos que foram selecionados para serem incorporados ao currículo escolar, de uma maneira que cada conteúdo deve ser alocado em um espaço definido, em uma disciplina específica.

Portanto, podemos inferir que o conceito de disciplina, sendo vista como comportamento ou como conjunto de conteúdos de uma determinada área do conhecimento, sempre está associado à idéia de ordem. Uma ordem imposta artificialmente.

Pois bem, agora, sabendo o conceito de disciplina, podemos tentar entender o que são multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade.

Multidisciplinaridade e Pluridisciplinaridade

São duas palavras que significam aquilo que encontramos nas realidades e contextos educativos formais. As escolas trazem em seus currículos conteúdos de diferentes disciplinas. O currículo tradicional escolar é um exemplo de currículo multi ou pluridisciplinar.

Esses conteúdos não saem de dentro de seus “compartimentos disciplinares”. Estão organizados e assim permanecem. Os professores não se comunicam entre si para compartilhar uma mesma aula. Cada professor dá a sua aula, sobre sua disciplina. Os alunos aprendem conteúdos separadamente. Geralmente são aulas descontextualizadas. O próprio professor não sabe como contextualizar seu conteúdo, pois na vida real não encontramos esses conteúdos assim dispostos, separados e fragmentados.

É neste momento que encontramos o problema principal:

Na vida real os conteúdos nunca se apresentam separadamente. Sempre estão associados a outros conteúdos de diferentes disciplinas. As disciplinas não existem na vida real, são apenas uma forma de organizar os conteúdos de maneira artificial, imposta pelo ser humano.

A partir desse impasse, da impossibilidade de contextualizarmos os conteúdos disciplinares em uma didática e currículo multidisciplinar, emergiram a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade.

Interdisciplinaridade

Visando superar essa dificuldade de se trabalhar os conteúdos de forma significativa e contextualizada, a visão interdisciplinar chega á escola em forma de projetos interdisciplinares, onde os professores de diferentes disciplinas se encontram e fazem seus planejamentos em conjunto a partir de um mesmo tema ou projeto.

Essa visão faz com que o aluno veja aproximações dos conteúdos de diferentes disciplinas, estabelecendo significado ao aprendizado.

A interdisciplinaridade é uma proposta bonita e que produz grandes resultados na escola. Os alunos aprendem de forma significativa, os professores trabalham em conjunto.

Os temas transversais que o governo brasileiro propõem são uma forma interessante de se trabalhar de forma interdisciplinar, pois todas as disciplinas podem fazer projetos tendo em comum um mesmo tema transversal.

Transdisciplinaridade

A idéia de transdisciplinaridade envolve não só os conteúdos disciplinares, mas também algo que vai entre, através e além das disciplinas.

Ou seja, para se trabalhar de forma transdisciplinar, devemos envolver conteúdos que não se adequam plenamente a nenhuma disciplina. Por exemplo, o corpo é um tema que está presente em várias disciplinas mas não pertence a nenhuma ao mesmo tempo. Está na disciplina de Educação Física, na disciplina de Biologia, na disciplina de Artes cênicas, mas não está totalmente inserida em nenhuma disciplina. Não é possível inserir o tema “corpo” em apenas uma disciplina.

Outro exemplo são as artes. As artes estão diluídas nas disciplinas de História, de Psicologia, de Artes Plásticas, de Linguagem, etc…

Além disso, podemos citar a Espiritualidade, a Atuação Social, o Meio Ambiente.

Mas então você me pergunta: Mas os temas transversais também são transdisciplinares?

Sim, claro!

Os temas transversais podem ser trabalhados de forma inter ou transdisciplinar. A diferença básica seria na forma como os professores trabalham.

Se os professores trabalham cada um somente com sua disciplina, trata-se de um trabalho interdisciplinar. Mas se os professores fazem um mesmo planejamento, onde todos participam de todos os processos, indo além de suas disciplinas de formação, se envolvem toda a comunidade escolar e seu entorno, as famílias, então trata-se de um trabalho transdisciplinar.

Ou seja, um trabalho transdisciplinar obrigatoriamente deve conter elementos que vão além das disciplinas e do espaço disciplinar das classes de aula.

O que você acha? Conhece algum trabalho transdisciplinar? Vamos iniciar uma conversa sobre essa questão?

Um abraço!

Profa. Patricia Limaverde Nascimento

Anúncios

3 comentários em “Antes de tudo…

  1. Boa tarde Patrícia,

    analisando seus posts acerca das temáticas: interdisciplinaridade, transdisciplinaridade, multidisciplinaridade/pluridisciplinaridade, acredito existir um futuro muito rico de possibilidades e resultados para todo o educador/professor que desafiar-se a “desbitolar-se” para enfim trabalhar com as perspectivas interdisciplinar e transdisciplinar.
    Sabemos que as mudanças refletem-se pela interferência de diversos aspectos que norteiam sua existência, tais como, necessidade/condicionalidades específicas, motivação/impulsão, espiritualidade, espontaneidade, força de vontade, consciência, entendimento/compreensão, aceitação/rejeição das pessoas.
    E, em se tratando destes temas, o rumo da conversa não é divergente. Trabalhar de forma integrada, seja em termos de conteúdos, metodologias e estratégias, seja em termos mais amplos, como nas formas de vivência das sociedades (de relacionamento intra e interpessoal; de convívio e interação com a natureza; de engenharias diversas que definem cada cenário da sociedade; de interação com Deus), vai exigir que, mente, corpo e espírito trabalhem únidos, com um propósito de superação de si (muitas vezes) para assumir a condição de modificar a realidade, tornar dialogáveis na relação ensino aprendizagem vivência: o aluno, o professor, a sociedade, a realidade que os circunda e está inscrita em suas vidas, em seus relacionamentos.
    Há dois anos trabalho com o Projeto PROINFO do Governo Federal (MEC), junto a crianças, e mais recentemente, com os professores municipais de Barracão-PR. Percebo que, muitas vezes temos os recursos para extrapolarmos os limites bitolados de ensino aprendizagem, porém, não acreditamos na possibilidade de fazer algo maior, de explorar nosso potencial, deixando-o, muitas vezes, inativo. Vejo no computador, por exemplo, um instrumento interdisciplinar fantástico. Mas ele, por si só, não irá assegurar a corporificação e aplicação de metodologias, abordagens, paradigmas (trans) ou interdisciplinares. É semelhante ao mesmo computador, há aproximadamente três décadas: alguém aperfeiçoou um dispositivo físico, com componentes elétricos, fios, circuitos, tela, teclado, CPU. Porém, não havia, até o momento, um programa que transcendesse os limites de codificação, interação e processamento de dados na época. Foi então, que um expert munido do domínio de conhecimento e de autoria de um software, descobriu a existência deste equipamento, e, estabelecendo um acordo com a empresa do equipamento, conseguiu implacar seu software naquela máquina, gerando um novo experimento, com um novo potencial, com um novo olhar e interesse, que inspirou múltiplas possibilidades de aplicação, gerando múltiplas necessidades: este é: o micro-computador (de fato). Embora o computador já existisse há algumas décadas anteriores, o micro-computador extrapolou os limites existentes até então. Hoje, ele faz parte da realidade de muitas empresas (públicas e estatais), residências, entre outros.
    Aí você pode se perguntar: Como o computador se tornou tão famoso, tão presente, tão indispensável? O que ele oculta ou expõe que possam explicar essa trajetória de sucesso?
    De Boolean (com a lógica Booleana)/John Mauchly (inventor do ENIAC) à Bill Gates (Microsoft)/Steve Jobs (Apple)/Linus Torvalds (Sistema Operacional Open Source – Linux), o que houve? o que fora feito? Quem se mobilizou? Qual e quanto foi o investimento? Investimento só financeiro? Quais os interesses? Quais as motivações? Quais as visões?
    Não será preciso, aqui, no entanto, responder pergunta a pergunta, para compreender-se que, o sucesso do micro-computador, esteve sustentado pela existência de um forte elo de investimento em pesquisa (teórica e experimental), produção individual e coletiva, interesses de aplicação, divulgação dos resultados/do produto final.
    Voltando ao centro da discussão, o que ocorre, no entanto na educação? Percebemos profissionais cada vez mais desmotivados, despreparados, individualistas,
    limitados na exploração e administração do tempo (seja para planejar, ensinar, se aperfeiçoar, conviver com o seu meio). Uma educação restrita a quatro paredes; metodologias limitadas ao linear; à falta de exploração dos orgãos dos sentidos (tanto de alunos, como do próprio educador); de um trabalho que contemple, exercite e respeite os estilos de ensinagem e de aprendizagem de professores e alunos; das possibilidades e formas de exploração do saber. Esta realidade, presente em muitas escolas públicas e particulares de nosso país, restringe o potencial a posteriori da palavra Transdisciplinar. Seu potencial irrestrito, fica mesmo restrito, à visualização da palavra a priori.
    Em resumo, acredito que as perspectivas existentes (muito mais em teoria que em prática), poderão se efetivarem algum dia em muitas escolas de nosso país, caso, o ato de educar, deixe de ser restrito a um sistema subordinado a interesses políticos e econômicos, que vão, muitas vezes, DE encontro ao verdadeiro crescimento cultural e espiritual de grande parcela de nossa população.
    Ver a realidade como um todo (tal como uma águia vê o seu cenário, o seu campo na altitude), exige que: ensinos, aprendizagens, espaços, meios, fins, pessoas, formas e substâncias concorram para a apresentação da realidade como ela é, de fato. E é neste cenário, que a transdisciplinaridade encontra seu terreno ideal de existência e aplicabilidade.

  2. Acredito e sou favorável a abordagem interdisciplinar, porém a organização disciplinar do conhecimento tem uma história com sucessos e fracassos. Não se pode negar o sucesso dessa forma de organizar o conhecimento. Defendo o uso da metodologia interdisciplinar, mas ela ainda não substitui a organização disciplinar que existe para melhores condições para uma maior especificidade do conhecimento.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s