Dicas de uma docência transdisciplinar

Os princípios de uma docência transdisciplinar propostos por Rosamaria Arnt* estão bem delineados a seguir. Eles são guias para uma prática docente transformadora:

a. Primeiro princípio: reconhecer o mundo que vivemos

O primeiro princípio da docência transdiciplinar pauta-se na necessidade de reconhecer o mundo em que vivemos, num movimento de integração, compreendendo que somos parte dele através de um gesto de consciência e abertura com vistas a uma ação enraizada em nosso tempo, permitindo a consciência do  significado de fazer parte da sociedade/meio em que vivemos, ressaltando a importância do acoplamento estrutural, enquanto reconhecemos também a possibilidade de interferir no meio, nele desencadeando mudanças. O fazer docente não é descompromissado ou insignificante frente à complexidade da realidade. Será descompromissado e insignificante, porém, se não houver consciência de nosso papel neste contexto. Dessa forma, imerso na realidade complexa, o pensamento transdisciplinar revela-se na tomada de consciência de nosso tempo e de nosso ser no tempo, abrindo-se numa dimensão de cuidado e trabalho, num gesto consciente de abertura.

b. Segundo princípio: encontrar-se com o tempo de ser

A docência transdisciplinar pressupõe uma relação diferente com a própria realidade. Mas também deve  incluir uma relação diferente do docente consigo mesmo, num movimento de auto-conhecimento possibilitando a distinção em relação ao meio mas também a integração consciente a ele. Pressupõe uma racionalidade aberta dialogando com a não-racionalidade, para que vislumbremos o significado de transitar pela zona de não-resistência**, ou o sagrado. Acredito, como descrito por Ken Wilber (2003) que existe um tipo de conhecimento somente possível através da vivência. Este é o conhecimento obtido a partir de um gesto de interrupção, suspendendo-se o automatismo da ação numa reflexão atenta (Varela et al.), reconhecendo que a razão pode combinar-se com a intuição e o amor, permitindo a transgressão para além da lógica indutivo-dedutivo-identitária (Morin, 2000).

c. Terceiro princípio: acolher as partes

Estando em contato com o meio formado pelo outro-sociedade-natureza, estando em contato consigo mesmo, a docência transdisciplinar pressupõe o acolhimento do outro-aluno. É impossível conhecer o todo sem conhecer particularmente as  partes. Assim, outro princípio pressupõe o gesto cuidadoso em direção ao aluno, acolhendo-o em sua inteireza, reconhecendo sua multidimensionalidade.

d. Quarto princípio: criar circunstâncias para a comunhão

É impossível conhecer as partes sem conhecer o todo. Assim, o movimento contínuo nos leva a procurar o conhecimento do todo – grupo de aprendizagem – constituindo-se também um princípio da docência transdisciplinar. O conhecimento do todo tem um intencionalidade, que é proporcionar a comunhão – o estar junto, numa comunidade com objetivos compartilhados e convivência marcada pela aceitação do outro com legitimo outro (Maturana,  1997), formando um sistema social humano.

 

e. Quinto princípio: conhecer através da auto-eco-organização

O quinto princípio da transdisciplinaridade inclui nossa relação com o conhecimento. Em movimento contrário à fragmentação dos saberes, na docência transdisciplinar reconhece-se a relação com o conhecimento numa perspectiva de auto-eco-organização, com diretrizes pautadas no triângulo da vida, ou seja, conheço para ampliar minha relação compreensão de mim mesma, do outro-sociedade, do meio-natureza, num diálogo que visa a manutenção da organização que formamos. O conhecimento é construção-reconstrução-criação-recriação do indivíduo num processo de auto-organização (Moraes, 2003)

f. Sexto princípio: viver em  diálogo – compreender a vida numa perspectiva de paz

Cada um dos princípios acima descritos nos remete a um movimento recursivo e retroativo isoladamente  e em seu conjunto, pois qualquer mudança na visão do nosso tempo interfere na maneira como nos relacionamos conosco mesmos, na  maneira como acolhemos nosso aluno, como intervimos na formação do sistema social e como criamos circunstâncias de aprendizagem. Há uma dança entre os princípios e é a consciência dela que consubstancia a  vivência transdisciplinar em sala de aula. O diálogo entre os princípios, vívidos em nossa ação, têm por base e por fundo a paz, significando que não pode desenvolver-se em isolamento. É através da interação e integração harmoniosa entre eles que podemos pensar em paz como um estado de espírito a ser alcançado, representando o diálogo consciente e ininterrupto com tudo o que existe, num fluxo amoroso que pressupõe compreensão e aceitação, produto da ecologia interior, da ecologia social e da ecologia ambiental, como três ecologias em constante interação (Moraes e Torre, 2004)

* fonte do texto “Princípios da Docência Transdisciplinar”* de Rosamaria de Medeiros Arnt: http://www.ecotrans.pro.br/site/attachments/article/112/Principios%20de%20docencia%20transdisciplinar.pdf

**  A zona de não-resistência é uma região de não racionalização, de transparência absoluta. É a zona da intuição, da compreensão pelo amor, ou, no dizer de Nicolescu (1999), do sagrado. A não-resistência desta zona deve-se, simplesmente, aos limites de nosso corpo e de nossos órgãos dos sentidos, quaisquer que sejam os instrumentos de medida que prolonguem estes órgãos. O sagrado não se opõe à racionalidade. Trata-se, de um terceiro incluído, possibilitando a coexistência dialógica da racionalidade com a não racionalidade.

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