Perguntas-guia para Atividades Transdisciplinares 1

A seguir, discuto algumas perguntas-guia para a realização de atividades transdisciplinares na sala de aula:

1.1.  Aprender a respeitar e cuidar do Corpo

Precisamos evitar que o corpo seja deixado de lado, pois junto ao crescimento exponencial da tecnologia, cresce também a apatia, o sedentarismo, doenças de empatia como a depressão e a ansiedade. O corpo nunca foi tão negligenciado por uma sociedade. A “cultura do corpo” tão difundida nas academias de ginástica e na mídia é, na verdade, a cultura do não-corpo, da não aceitação de seu corpo e suas habilidades naturais, da não escuta aos seus anseios e necessidades.

A aceleração da vida moderna nos faz adormecer o corpo. Não há tempo nem lugar para sentir cansaço, poluição, desconforto, fome. A falta de atenção ao corpo favorece o aparecimento de doenças e o bem-estar fica cada vez mais distante do cotidiano das pessoas. Qualidade de vida confundiu-se com perda do bem-estar em função do trabalho e da rotina corrida. É necessário reestabelecer a harmonia entre o corpo e as outras dimensões o humano.

Nesse sentido, que perguntas-guia podem nortear uma prática educativa transdisciplinar?

Qual a atenção que o professor dá ao corpo?

Ao seu próprio corpo?

Que atividades realiza com o objetivo de favorecer o contato do aluno com seu próprio corpo?

Há aulas de saúde, bem-estar?

Estudam conteúdos relacionados ao corpo e sua saúde?

Há conteúdos que envolvem movimento ou alimentação saudável?

Há atividades de escuta do corpo, suas necessidades?

 

1.2.  Aprender a exercer a Cidadania Planetária

1.2.1.     Conviver na Diversidade (dos Meios Sociais e dos Ambientes Naturais)

O modo de operar do pensamento cartesiano possui a tendência à homogeneidade e generalização. Após séculos operando desta maneira, a sociedade ocidental já globalizada enfrenta o grande desafio de aprender a conviver com o diverso, o que foge de suas próprias referencia, o que não é generalizável nem se pode homogeneizar.

A multiculturalidade, a multirrefencialidade e a multidimensionalidade passam a ser cada vez mais percebidas. Culturas e indivíduos que enfrentam a globalização com sua pasteurização cultural tentam encontrar cada vez mais espaço de resistência.

Reaprender as tradições locais e sua sabedoria é o primeiro passo para entender as outras tradições e suas particularidades. “Não existe um lugar cultural privilegiado de onde se possam julgar as outras culturas. A abordagem transdisciplinar é ela própria transcultural.” (CARTA DA TRANSDISCIPLINARIDADE apud NICOLESCU, 1999, p. 162)

Desenvolver o senso de diplomacia e a capacidade de estabelecer um diálogo genuíno transcultural é uma grande necessidade nos dias de hoje. Engrandece as tradições em vez de empobrecer, como o que ocorre com a globalização.

Conviver na diversidade não se dá somente entre os seres humanos. Precisamos aprender a conviver na diversidade dos ambientes naturais.

Nesse sentido, que perguntas-guia podem nortear uma prática educativa?

Como oportunizar cenários propícios para o desenvolvimento das habilidades de diplomacia e convívio com o diferente?

As atividades desenvolvidas no ambiente educativo são propostas ao aluno individualmente ou ao grupo de alunos?

Os alunos necessitam trabalhar em grupo conjuntamente para a realização das atividades?

Os alunos precisam argumentar, defender seus pontos de vista e, ao mesmo tempo, tentar entender os pontos de vista diferentes dos seus?

De que forma o professor facilita esses processos?

 

1.2.2.     Atuar com responsabilidade Socioambiental

Um dos grandes aspectos de uma verdadeira Cidadania Planetária é exercer a responsabilidade de transformação social que possuímos.

Reconhecer essa responsabilidade e atuar de forma a promover uma real transformação socioambiental é exercer uma atitude transdisciplinar coerente.

Neste momento de crise, movimentos atuantes devem conquistar cada vez mais espaço, em diferentes dimensões de ação, indo através de redes sociais, protestos criativos nas ruas, atuação individual em contextos familiares e de trabalho, nas escolas.

Como desenvolver esses objetivos em uma prática educativa transdisciplinar?

O professor está atento às emergências socioambientais em escala local e global?

Possui uma visão crítica, mas aberta, da problemática? Entende o problema socioambiental sob diferentes pontos de vista?

Traz essas problemáticas para a sala de aula e exercita com os alunos a busca de alternativas a esses problemas?

Inclui manifestações políticas e criativas em suas aulas, envolvendo os alunos?

Leva os alunos para conhecer a comunidade local onde vivem a fim de se inteirarem sobre os problemas socioambientais encontrados localmente?

Auxilia os alunos a se articularem de forma a manifestarem suas opiniões, exigindo e propondo transformações necessárias?

Integra essas atividades aos conteúdos disciplinares?

 

1.2.3.     Amar o Ser Humano e a Natureza: Ética Planetária

A origem de toda ação de transformação, desde que seja em prol do bem comum, é o amor. O amor é o sentimento que une cada ser humano a outro e à Natureza. É a substância da teia de relações da vida, que dá energia e certa concretude às interações, perceptíveis ou não.

Transformar e exercer a Cidadania Planetária só acontece a partir do sentimento de amor. Um amor transformador que atravessa fronteiras culturais e atua compassivamente. Reconhecer esse sentimento e deixar que ele se manifeste em suas ações é um aprendizado de abertura e desapego. Desse amor, dessa compaixão, a verdadeira solidariedade floresce.

A ética transdisciplinar recusa toda atitude que se negue ao diálogo e à discussão, qualquer que seja sua origem – de ordem ideológica, cientificista, religiosa, econômica, política, filosófica. O saber compartilhado deveria levar a uma compreensão compartilhada, baseada no respeito absoluto das alteridades unidas pela vida comum numa única e mesma Terra. (CARTA DA TRANSDISCIPLINARIDADE apud NICOLESCU, 1999, p. 162)

Como verificar o trabalho com a Ética Planetária no cotidiano de uma prática educativa transdisciplinar?

Há momentos de contemplação da natureza?

O professor está atento ao trabalho em grupo de forma a facilitar processos que possibilitem ao aluno compreender pontos de vista diferentes do seu?

O professor disponibiliza tempo e cenários apropriados para o estado meditativo e reflexivo?

O professor traz para a sala o tema do amor e do respeito, explorando-os através das artes e da reflexão?

 

No próximo mês discutiremos as perguntas-guia para práticas educativas transdisciplinares relacionadas aos seguintes temas:

  1. Desenvolver o Ser Criativo
  2. Aprender a Aprender, a Aperfeiçoar-se, interligando saberes
  3. Aprender a Transcender, a lidar com a intuição e o não-racional

Professor, compartilhe suas ideias também! Terei prazer em divulgá-las!

Um abraço!

Profa. Patricia Limaverde

Transdisciplinaridade, Corpo e Cidadania Planetária

Listo abaixo, alguns links interessantes sobre os temas: Transdisciplinaridade, Corpo e Cidadania Planetária

Oficina Cuidadoteca – Cuidado Transdisciplinar do Corpo como consciência: dinâmica dos sentidos

http://www.sepq.org.br/IVsipeq/anais/artigos/111.pdf

O Lugar do Corpo na Aprendizagem: Uma Perspectiva Transdiciplinar

http://cev.org.br/biblioteca/o-lugar-corpo-aprendizagem-uma-perspectiva-trasndiciplinar/

Material da UMAPaz, da Secretaria do Verde do município de São Paulo (Cidadania Planetária)

http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/meio_ambiente/umapaz/caderno_das_aguas/index.php?p=247

 

 

Parâmetros para Práticas Educativas Transdisciplinares 1

Olá Professor!

Em junho deste ano apresentei um trabalho sobre Transdisciplinaridade no “IV Forum Internacional Innovación y Creatividad sobre Adversidad  y Escuelas Creativas”, na Universidade de Barcelona. Me pareceu oportuno fazer uma crítica ao excesso de teoria relacionada ao tema. Raras são as práticas educativas que realmente efetivam uma ação pedagógica transdisciplinar.

Por quê? Seria essa dificuldade, de colocar a transdisciplinaridade em prática, derivada da própria formação fragmentada que tivemos?

Estando toda a educação moderna voltada para conteúdos externos e valores impostos, as pessoas se tornam cada vez mais vazias, mesmo repletas de conteúdos disciplinares fragmentados e fragmentadores do pensar, do sentir e do agir.

A Transdisciplinaridade traz uma visão mais complexa das ciências, da educação e dos problemas contemporâneos propondo novos modos de pesquisa e ação sobre a realidade mais integradores.

A perspectiva holística da realidade é representada pela ideia de uma consciência transdiciplinar. Presente em todos os setores do conhecimento, ela diz respeito ao conjunto de saberes particulares, visando o entendimento acerca dos mecanismos de funcionamentos humano e físico. Nesse sentido, a compreensão do real, sob a ótica holística, somente alcança uma definição, ainda que provisória, a partir da análise das inter-relações com outros elementos, e não pelo método cartesiano, que “analisa o mundo em partes e organiza essas partes de acordo com leis causais”. (CAPRA, 1999, p. 80)

A Transdisciplinaridade, portanto, ao questionar o excesso de fragmentação do saber e a pouca visão do todo que temos na chamada “sociedade do conhecimento” tem uma importante responsabilidade associada à educação.

O movimento transdisciplinar possui uma grande fluidez em relação às teorias que abarca bem como em suas manifestações práticas, principalmente no que diz respeito à educação. Temos um vasto repertório de teóricos, de diferentes áreas do conhecimento, que se aventuram pelos terrenos incertos da Transdisciplinaridade. Cada um utiliza-se da abertura intrínseca que a própria Transdisciplinaridade prega e contribui, a seu modo. Porém, mesmo partindo de um certo arcabouço comum em termos teóricos, as pesquisas acadêmicas que lidam com esse tema são muito diversas, fluidas e, às vezes, contraditórias e frágeis demais.

Por exemplo, uma determinada prática pedagógica pode ser analisada e classificada como sendo interdisciplinar, por alguns, transdisciplinar, por outros e multidisciplinar por mais alguns. Também não há consenso sobre quais seriam os critérios que caracterizam uma prática transdisciplinar em educação.

O “como”, a prática efetiva de uma educação transdisciplinar, permanece ainda iminente, com poucas exceções de exemplos sólidos, concretos, sistematizados, efetivos e afetivos, institucionalizados. A Trandisciplinaridade geralmente ocorre somente de forma intencional nos discursos das instituições de ensino. Poucas instituições formais ou não formais possuem uma real prática educativa transdisciplinar implantada de onde já se pode colher frutos maduros.

Há conteúdos não disciplinares necessários à educação transdisciplinar visando a formação de indivíduos mais íntegros e felizes? Que conteúdos são esses e como trabalhá-los na escola?

A Transdisciplinaridade manifesta-se portanto como uma teoria que, na prática educativa real, é ainda bastante volátil por carecer de referenciais e critérios claros de aplicação, ainda que abertos e flexíveis. Contudo, é preciso trazer à prática educativa tal ideia. “É preciso viver a vida que se pretende mudar.” (FEYERABEND, 1991, p. 355)

Proponho, portanto, categorias de aplicação da Educação Transdisciplinar, que poderão apontar dicas para práticas educativas reais. São elas:

As categorias de análise-síntese propostas são:

  1. Aprender a respeitar e cuidar do Corpo
  2. Aprender a exercer a Cidadania Planetária
    1. Conviver na Diversidade (dos Meios Sociais e dos Ambientes Naturais)
    2. Atuar com responsabilidade Socioambiental
    3. Amar o Ser Humano e a Natureza: Ética Planetária
  3. Desenvolver o Ser Criativo
  4. Aprender a Aprender, a Aperfeiçoar-se, interligando saberes
  5. Aprender a Transcender, a lidar com a intuição e o não-racional

Em “Atividades Transdisciplinares” deste mês, discuto no texto “Perguntas-guia para Atividades Transdisciplinares 1“, dicas de como aplicar os dois primeiros itens da lista acima (e os 3 sub-itens). Os outros itens irei discutir no próximo mês.

Em “Multimídia”, recomendo muitíssimo um longa-metragem intitulado “Educación Prohibida“.

Em “Linkoteca”, também recomendo links interessantes sobre “Transdisciplinaridade, Corpo e Cidadania Planetária“.

Peço que os professores que desejarem, enviem seus exemplos de práticas educativas transdisciplinares, que terei imenso prazer em divulgá-las!

Um grande abraço!

Profa. Patricia Limaverde