Parâmetros para Práticas Educativas Transdisciplinares 1

Olá Professor!

Em junho deste ano apresentei um trabalho sobre Transdisciplinaridade no “IV Forum Internacional Innovación y Creatividad sobre Adversidad  y Escuelas Creativas”, na Universidade de Barcelona. Me pareceu oportuno fazer uma crítica ao excesso de teoria relacionada ao tema. Raras são as práticas educativas que realmente efetivam uma ação pedagógica transdisciplinar.

Por quê? Seria essa dificuldade, de colocar a transdisciplinaridade em prática, derivada da própria formação fragmentada que tivemos?

Estando toda a educação moderna voltada para conteúdos externos e valores impostos, as pessoas se tornam cada vez mais vazias, mesmo repletas de conteúdos disciplinares fragmentados e fragmentadores do pensar, do sentir e do agir.

A Transdisciplinaridade traz uma visão mais complexa das ciências, da educação e dos problemas contemporâneos propondo novos modos de pesquisa e ação sobre a realidade mais integradores.

A perspectiva holística da realidade é representada pela ideia de uma consciência transdiciplinar. Presente em todos os setores do conhecimento, ela diz respeito ao conjunto de saberes particulares, visando o entendimento acerca dos mecanismos de funcionamentos humano e físico. Nesse sentido, a compreensão do real, sob a ótica holística, somente alcança uma definição, ainda que provisória, a partir da análise das inter-relações com outros elementos, e não pelo método cartesiano, que “analisa o mundo em partes e organiza essas partes de acordo com leis causais”. (CAPRA, 1999, p. 80)

A Transdisciplinaridade, portanto, ao questionar o excesso de fragmentação do saber e a pouca visão do todo que temos na chamada “sociedade do conhecimento” tem uma importante responsabilidade associada à educação.

O movimento transdisciplinar possui uma grande fluidez em relação às teorias que abarca bem como em suas manifestações práticas, principalmente no que diz respeito à educação. Temos um vasto repertório de teóricos, de diferentes áreas do conhecimento, que se aventuram pelos terrenos incertos da Transdisciplinaridade. Cada um utiliza-se da abertura intrínseca que a própria Transdisciplinaridade prega e contribui, a seu modo. Porém, mesmo partindo de um certo arcabouço comum em termos teóricos, as pesquisas acadêmicas que lidam com esse tema são muito diversas, fluidas e, às vezes, contraditórias e frágeis demais.

Por exemplo, uma determinada prática pedagógica pode ser analisada e classificada como sendo interdisciplinar, por alguns, transdisciplinar, por outros e multidisciplinar por mais alguns. Também não há consenso sobre quais seriam os critérios que caracterizam uma prática transdisciplinar em educação.

O “como”, a prática efetiva de uma educação transdisciplinar, permanece ainda iminente, com poucas exceções de exemplos sólidos, concretos, sistematizados, efetivos e afetivos, institucionalizados. A Trandisciplinaridade geralmente ocorre somente de forma intencional nos discursos das instituições de ensino. Poucas instituições formais ou não formais possuem uma real prática educativa transdisciplinar implantada de onde já se pode colher frutos maduros.

Há conteúdos não disciplinares necessários à educação transdisciplinar visando a formação de indivíduos mais íntegros e felizes? Que conteúdos são esses e como trabalhá-los na escola?

A Transdisciplinaridade manifesta-se portanto como uma teoria que, na prática educativa real, é ainda bastante volátil por carecer de referenciais e critérios claros de aplicação, ainda que abertos e flexíveis. Contudo, é preciso trazer à prática educativa tal ideia. “É preciso viver a vida que se pretende mudar.” (FEYERABEND, 1991, p. 355)

Proponho, portanto, categorias de aplicação da Educação Transdisciplinar, que poderão apontar dicas para práticas educativas reais. São elas:

As categorias de análise-síntese propostas são:

  1. Aprender a respeitar e cuidar do Corpo
  2. Aprender a exercer a Cidadania Planetária
    1. Conviver na Diversidade (dos Meios Sociais e dos Ambientes Naturais)
    2. Atuar com responsabilidade Socioambiental
    3. Amar o Ser Humano e a Natureza: Ética Planetária
  3. Desenvolver o Ser Criativo
  4. Aprender a Aprender, a Aperfeiçoar-se, interligando saberes
  5. Aprender a Transcender, a lidar com a intuição e o não-racional

Em “Atividades Transdisciplinares” deste mês, discuto no texto “Perguntas-guia para Atividades Transdisciplinares 1“, dicas de como aplicar os dois primeiros itens da lista acima (e os 3 sub-itens). Os outros itens irei discutir no próximo mês.

Em “Multimídia”, recomendo muitíssimo um longa-metragem intitulado “Educación Prohibida“.

Em “Linkoteca”, também recomendo links interessantes sobre “Transdisciplinaridade, Corpo e Cidadania Planetária“.

Peço que os professores que desejarem, enviem seus exemplos de práticas educativas transdisciplinares, que terei imenso prazer em divulgá-las!

Um grande abraço!

Profa. Patricia Limaverde

Edgar Morin: seu pensamento transdisciplinar e a educação planetária

Olá Professor@!

Nesta edição, vamos conhecer um pouco mais sobre esse grande pensador da atualidade.

Edgar Morin nasceu em 1921 em Paris. Teve que trocar seu nome para livrar-se do nazismo, foi comunista e rechaçado pela academia parisiense. Livre de fronteiras disciplinares, Edgar Morin pensa de forma transgressora e complexa. Interliga conhecimentos de distintas áreas, estabelecendo uma comunicação capaz de dotar de sentido o saber. Propõe a interligação entre ciência, artes e tradição; entre sujeito, objeto e conhecimento produzido; entre corpo, mente e sentimentos.

Questionando a separação dos conhecimentos em disciplinas que não se comunicam entre si, argumenta que na escola tradicional aprendemos a separar e analisar sem, contudo, aprendermos a relacionar e a interligar.

Seguimos nessa lógica da “separação” e da “distinção” encarando o ser humano como sendo corpo, mente e sentimentos, partes disjuntas entre si, ignorando que esses são três aspectos de um todo indivisível e complexo.

Em níveis mais amplos, continuamos a mesma lógica de separação e disjunção. A discriminação social, a estratificação das pessoas em camadas sociais ou em níveis sociais, ou ainda em castas. As guerras e a falta de diálogo intercultural. A incapacidade de compreender as necessidades e os pontos de vista do outro, de outra cultura, de outra comunidade.

Segundo Morin, nosso atual modelo de educação, fundado sobre a lógica da disjunção, é incapaz de perceber as relações existentes entre os conhecimentos, é incapaz de conceber e contemplar, em seu currículo e sua didática, o ser humano como um todo indiviso. Desta maneira, contribui para o distanciamento cada vez mais crescente do ser humano para com os outros e para com a natureza. Sem falar no desconhecimento do ser humano em relação a si próprio, a seus desejos internos, suas necessidades, seus sentimentos, medos e anseios.

Para Morin, todo conhecimento é uma tradução e uma reconstrução. Não existe um conhecimento absoluto, ao contrário, o conhecimento é sempre passível de erros e ilusões. A ideia de que todos percebemos a mesma realidade é uma ilusão. A partir da nossa percepção individual, traduzimos os estímulos que recebemos do exterior e reconstruímos a realidade conforme nossos próprios processos internos. Ou seja, o que achamos que é a realidade, na verdade é uma interpretação particular, individual e só partilhada através da linguagem.

A educação tradicional, portanto, adotou um único modelo de realidade que é postulado nos livros didáticos que são perpetuados geração a geração. Os professores são formados a partir de uma simplificação de mundo onde eles acreditam que é possível simplificar a realidade para ser melhor apreendida ou transmitida a seus alunos.

Este é um grande obstáculo o qual a educação planetária, estruturada sob um Paradigma da Complexidade e não um paradigma da simplificação, deve conseguir transpor.

Os conhecimentos que criamos na escola tradicional, simplificados e simplificantes, passam a ser tratados quase como dogmas e esses dogmas passam a “controlar” a escola, os currículos, didáticas e sistemas de avaliação. Controlam o fazer do professor, a estrutura das salas de aula,  os corredores e pátios.

Uma educação simplificadora e dogmática, disciplinar, atrofia a aptidão de contextualizar os conhecimentos. Valoriza muito mais a separação que a associação de ideias num todo significativo.

A educação planetária deve caminhar em direção às associações, não só analisando a realidade, mas estabelecendo relações entre os conhecimentos construídos. Relacionando não somente conteúdos disciplinares de diferentes áreas, mas também indivíduo, sociedade e natureza; corpo, mente e emoções.

A identidade humana, o que nos torna humanos, o que nos une enquanto seres humanos? Essa é uma questão que não pode ser ignorada pela educação planetária.

Somos todos muito parecidos geneticamente. Enquanto indivíduos de uma mesma espécie, temos as mesmas necessidades. Ao mesmo tempo, somos diversos, em cultura, em organização de sociedades, raças, línguas.

Somos, ainda, parte de uma natureza indivisível. Dependemos de interligações com outros seres vivos, com seres não vivos, somos natureza.

Essas são as três dimensões do ser humano: enquanto individuo, enquanto espécie, enquanto ser social.

O ser humano está ameaçado em todas as suas dimensões. Esse pensamento simplificador da realidade fez com que, ao perdermos a visão do todo e suas ligações, produzíssemos conhecimentos capazes de nos distanciar cada vez mais da vida natural e social.

Produzimos ameaças a nós mesmos. Enquanto espécie, estamos ameaçados constantemente por perigos de guerra, de desastres nucleares, perigos causados pelo aquecimento global.

Enquanto ser social, estamos ameaçados por um totalitarismo do capital, por uma economia que invade fronteiras e busca uma homogeneização capaz de aniquilar culturas em prol da criação de consumidores para alimentar o mercado.

Enquanto individuo, o ser humano se perde de si mesmo, ignora sua espiritualidade, seus anseios, seus desejos e medos. Ameaça a si mesmo e cai, cada vez mais no abismo das doenças da modernidade: depressão, ansiedade, obesidade, dentre outros transtornos severos.

Devemos, portanto, através de uma educação planetária, nos proteger enquanto espécie, enquanto ser social e enquanto indivíduos. A escola para uma educação planetária deve contemplar esses aspectos em seus planos curriculares, na didática e atividades cotidianas, em uma nova concepção espacial da escola.

Você, professor@, tem alguma ideia de como favorecer esse processo de transformação?

Em “Atividades Transdisciplinares” ofereço uma proposta de “Teia Curricular: o cuidado com o Indivíduo, com o Meio Social e com o Meio Natural”.

Em “Vídeos sobre Edgar Morin” há uma coletânea dos melhores vídeos sobre as principais ideias desse grande pensador.

Em “Links sobre Edgar Morin”, fiz uma lista de links interessantes para aprofundar a discussão.

Espero que possamos pensar e repensar a educação. Como Edgar Morin fala “reformar o pensamento e repensar a educação”!

Uma boa leitura a tod@s!

Profa. Patricia Limaverde Nascimento

Rio+20 e economia Solidária na Escola – uma proposta Transdisciplinar

Olá professor! Como vai?

Você tem acompanhado os acontecimentos da Rio+20?

Era de se esperar que as discursões fundamentais esbarrassem no limite relacionado ao nosso modelo de economia atual. Desde 1972, com a Conferência de Estocolmo, o primeiro evento mundial proposto com o intuito de refletirmos e tomarmos atitudes necessárias a uma relação mais saudável entre o ser humano e o meio ambiente, esse problema emerge.

As grandes atitudes, capazes de promover uma real transformação socioambiental, necessitam sobretudo de um novo modelo de economia.

Já em 1972, na Conferência de Estocolmo, cientistas, políticos, empresários e ecologistas já discutiam esse impasse. Se os problemas socioambientais estavam ligados ao crescimento econômico, as opiniões relacionadas à solução desse problema, de uma forma geral, foram resumidas em duas:

–       a ideia do não-desenvolvimento, ou seja, parar o desenvolvimento econômico da forma como ele estava na época, visando a conservação dos recursos naturais;

–       ou buscar o desenvolvimento econômico mais sustentável, mas permanecendo no mesmo paradigma econômico.

É claro que o Brasil, na época, tomou logo partido e defendeu a ideia de que parar o crescimento econômico seria impossível e não desejável. O Brasil liderou o grupo de países em desenvolvimento que alegava que “parar o desenvolvimento” seria uma estratégia para manter os países ricos mais ricos e os países pobres sem perspectivas de crescimento.

Nosso país defendeu o “crescimento a todo custo” e decerto, assim o fez, impactando drasticamente o meio ambiente e as pessoas envolvidas com diversas grandes obras como a Transamazônica, por exemplo. Além disso, deu carta branca à industrialização “a todo custo”, sem preocupar-se com a degradação do meio ambiente e com a poluição. Durante a década de 80, por exemplo, carregamos o fardo de termos a cidade mais poluída do mundo, Cubatão, onde foi noticiado em diversos jornais casos de mortes neonatais por anencefalia causada com contaminação.

Desde a Conferência de Estocolmo, passando 20 anos mais adiante, pela Rio92 e indo mais 20 anos até os dias de hoje, a ideia de que é possível que o atual modelo de desenvolvimento econômico adotado mundialmente seja mais sustentável permanece liderando a opinião de muitos, principalmente da tríade “política-economia-mídia”.

É por isso que estudos como o AR4, do IPCC, de 2007, ou tratados como o de Kioto (1998) não alcançam ampla repercussão, pois comprometem o atual modelo de desenvolvimento econômico desde sua raiz.

O atual modelo de desenvolvimento econômico tem como característica principal a busca pelo lucro e, por isso, se apoia necessariamente sobre três pilares:

1-    O Consumismo, e com isso, manipulações durante o processo de produção e na mídia, de forma a garantir um consumo contínuo e cada vez maior de bens. Para incrementar o consumo, existem duas estratégias adotadas no sistema:

  1. Obsolescência planejada: quando os bens de consumo são projetados, desde o processo de produção, para que sejam descartados o mais rapidamente possível. Por exemplo: bens que se quebram ou se danificam facilmente como roupas baratas de “promoção” que numa primeira lavagem já se “desintegram”; canetas ou lápis que ou cair no chão não escrevem mais; aparelhos celulares que param de funcionar de uma hora pra outra, geralmente após o período de garantia; softwares que só “rodam” em determinado sistema operacional, quando este é atualizado, o software não funciona mais; e assim por diante.
  2. Obsolescência perceptiva: quando as pessoas deixam de utilizar o bem que adquiriram porque estão “fora de moda” ou ultrapassados. Nesse caso a mídia contribui bastante, sempre lançando uma nova moda.

2-    A Degradação Ambiental: para se manter o consumismo se faz necessária a obtenção de matéria prima barata, ou seja, na atual estrutura de modelo de desenvolvimento econômico, a degradação ambiental é como uma condição essencial.

3-    A Exploração Humana: para se extrair matéria prima barata e também para se processar e industrializar essa matéria prima, se faz necessária a mão-de-obra barata também. Ou seja, a exclusão social também é condição para a manutenção desse modelo de desenvolvimento econômico.

Como podemos mudar essa estrutura-raiz do modelo de desenvolvimento econômico atual?

Vem crescendo desde há algum tempo, a ideia de transformação desse modelo, de uma forma mais radical, interferindo na raiz do problema. Transferindo o foco do desenvolvimento econômico que atualmente é o lucro para que seja o bem estar das pessoas e do meio ambiente. Esse novo modelo está sendo chamado de “Nova Economia”, ou “Economia Solidária” e, na Rio+20 está finalmente, ganhando mais e mais espaço.

Mas, o que a escola tem a ver com economia e como podemos contribuir para uma mudança significativa nesse sentido?

Uma nova consciência, uma nova sociedade, um novo pensamento.

A escola pode exercer seu papel de transformação socioambiental de forma mais consciente, quando promove atividades e vivências para seus alunos, professores envolvendo toda a comunidade.

Há diversas formas de promover a Economia Solidária e a escola é um espaço bastante apropriado para isso. Além disso, projetos com essa temática abordam conteúdos de diferentes disciplinas, interligando ainda conhecimento científico, conhecimento popular, artes e tradições.

Visite nossa sessão multimídia, no artigo “Vídeos sobre Economia Solidária” e veja quais são os fundamentos dessa nova forma de pensar-agir economia, bem como exemplos práticos de aplicações.

Na seção de dicas de atividades, leia o artigo “Atividades Transdisciplinares de Economia Solidária”, onde damos exemplos de possíveis projetos nessa temática.

Na Linkoteca, você vai encontrar o artigo “Links sobre Economia Solidária”, onde indico links úteis sobre o tema.

Espero que possamos realizar um novo modelo de economia, mais humano e voltado para o bem estar. Por isso, comecemos a agir, sobretudo na escola!

Um grande abraço!

Profa. Patricia Limaverde Nascimento

Transdisciplinaridade: modismo ou tendência?

Olá Professor@!

Hoje vamos conversar um pouco sobre os modismos em educação e como isso afeta a Transdisciplinaridade.

É cada vez mais evidente o crescente interesse pelo tema da Transdisciplinaridade.  Talvez  esse  fato  seja  devido  a  um  certo  “modismo” incrementado por uma mídia que não vê sentido naquilo que promove.

O  modismo  em  educação,  aqui  no  Brasil,  e  também  em  outros  países  como  é  o caso do continente Americano em geral e, em menor parte, a Europa, não é raro. Isso é um indicador da suscetibilidade do educador aos apelos midiáticos ou aos direcionamentos políticos voláteis.

Porém há casos em que um “modismo” surge a partir de uma necessidade iminente  e  persevera  enraizado  de  tal  forma  que  se  torna  parte  do  próprio contexto.  Foi  o  caso,  por  exemplo,  dos  movimentos  ecológicos  que  na  década  de 70  eram  considerados  manifestações  isoladas  de  alguns  hippies  e  na  década  de 80 passaram a ser mais veiculados na mídia, gerando um certo modismo, por muitos anunciado efêmero. Porém, o que aconteceu nas décadas seguintes foi o contrário.  Consciência  ambiental,  responsabilidade  socioambiental, manifestações relacionadas ao conservadorismo ecológico passaram a ser cada vez mais parte de nossas vidas. Hoje em dia, tanto a educação quanto todos os setores das políticas públicas consideram a preocupação socioambiental como premissa de suas ações e propostas.

Esse fenômeno se deu, como falamos, principalmente por um contexto iminente previsto e anunciado pelo movimento ambiental, desde sua concepção. Ou seja, a moda não era modismo.

Uma  outra  vertente  que  se  anuncia  já  há  umas  poucas  décadas  é  o  Movimento Transdisciplinar,   que   ganha   cada   vez   mais   espaço   na   mídia   e   no   cenário acadêmico.  Esse  movimento  anuncia  uma  tal  crise  planetária,  na  qual  vivemos, indicadora de uma pane no sistema de desenvolvimento econômico global; bem como no sistema de acúmulo exponencial do saber e agravado por problemas socioambientais advindos justamente dessas duas áreas.

A anunciada Crise Planetária se deve, pois, a uma visão deveras fragmentada por parte dos cientistas, políticos e da sociedade em geral. Essa fragmentação da realidade, e de nós mesmos, se refere ao modo de pensar cartesiano, incorporado ao longo da modernidade pelos indivíduos, instituições e dispositivos da sociedade.

O grande veículo, inaugurado na Modernidade com sua versão popularizada, capaz de propagar e consolidar a visão cartesiana na mentes, modos de agir e sentir dos indivíduos, a tal ponto de influenciar as organizações (instituições e dispositivos) da sociedade, esse veículo formatador de grande poder é a Escola.

A Transdisciplinaridade, portanto, ao questionar o excesso de fragmentação do saber e a pouca visão do todo que temos na chamada “sociedade do conhecimento” tem uma importante vertente associada à educação.

Porém, o movimento transdisciplinar possui uma grande fluidez em relação às teorias que abarca bem como em suas manifestações práticas, principalmente no que diz respeito à educação.

Autores como Edgar Morin, Michel Random, Ubiratan D’Ambrósio, Basarab Nicolescu, Humberto Maturana, Franscisco Varela, Maria Cândida Moraes, Pedro Demo, Américo Somerman, dentre outros, partem de algum referencial implícito comum e desenvolvem suas ideias de forma a contribuírem com suas visões particulares e convergentes sobre a Transdisciplinaridade.

Essa fluidez de teorias e práticas se manifesta de uma forma bastante relativa favorecendo a penetração do movimento transdisciplinar em vários setores e áreas do conhecimento acadêmico, o que é um ponto positivo.

É certo que o tema é pertinente ao contexto atual e referendado não somente por alguns poucos cientistas de “vanguarda” e sim, por organizações internacionais como a própria ONU e a UNESCO, chegando assim às Universidades. Porém, por ser um tema tão abarcante, corre sempre o risco de perder‐se de si mesmo, devido à grande variedade de interpretações, sobretudo quando chega às salas de aula.

Por exemplo, uma determinada prática pedagógica pode ser analisada e classificada como sendo interdisciplinar, por alguns, transdisciplinar, por outros e multidisciplinar por mais alguns. Também não há consenso sobre quais seriam os critérios que caracterizam uma prática transdisciplinar em educação.

A Transdisciplinaridade torna‐se portanto uma teoria que, na prática educativa real, é ainda bastante obscura e passível de enganos.

Faz-se  necessária  e  urgente,  portanto,  a  organização  de  uma  sistemática  de análise de experiências transdisciplinares em Educação, partindo de definições claras de critérios de análise, a fim de que esse imenso panorama teórico não caia  em  contradição  mantendo‐se  distante  de  uma  prática  educativa  real  e, assim, falindo como mais um modismo da Educação.

Professor, qual a sua visão a respeito desse tema?

Grande abraço!

Profa. Patricia Limaverde Nascimento

Transdisciplinaridade e transformação social

Olá Professor!

Como vai?

Hoje vamos refletir sobre como a escola pode cumprir, de acordo com sua proposta prática, duas funções extremamente antagônicas.

A escola pode assumir uma função de manutenção do poder dominante, formatando os indivíduos em padrões de comportamento, ou então, assumir a função libertadora dos indivíduos, capacitando-os a viver a liberdade de serem cidadãos que buscam através de seus pensamentos e ações, construir um mundo melhor.

A escola da idade moderna foi inventada como dispositivo para formatação de indivíduos “modernos”. Seu currículo, sua didática, seus mecanismos de avaliação e controle possuem em essência algumas características básicas:

  • a supervalorização da razão em detrimento do corpo, das emoções e dos sentidos;
  • a fragmentação do conhecimento;
  • a hierarquização de disciplinas e de produtividade medida pelos exames e provas;
  • a classificação;
  • a redução do que é complexo em peças simples, dissociadas entre si e descontextualizadas.

Essa forma de educar, porém, não se mostra eficaz em relação ao aprendizado de conteúdos disciplinares. A maior parte desses conteúdos é simplesmente esquecida pela maioria das pessoas, pois eles não foram apreendidos de forma significativa. Contudo, aprendemos muitos outros conteúdos ocultos que estão submersos na sociedade e em tudo o que fazemos.

O que a escola realmente ensina, não está expresso nos currículos.

Sofremos, na escola, uma formatação que nos padroniza enquanto seres humanos modernos. A escola é o modo mais eficiente de se formatar e disciplinarizar as pessoas de uma sociedade. Através desta instituição, disciplinarizamos o nosso modo de pensar, o nosso modo de sentir e de agir no mundo. Assim, nossa sociedade torna-se reflexo desse modo de ser fragmentado e disciplinarizado.

A formatação do corpo

Com relação à disciplinarização dos nossos corpos, por exemplo, aprendemos que a posição mais usual do ser humano é a sentada. Se refletirmos bem, poderemos chegar à conclusão que ficamos sentados metade de cada um dos dias de pelo menos 20 anos de nossas vidas, enfileirados em carteiras, na escola.

Esse “hábito” que adquirimos pelo exercício repetitivo de cada dia letivo nas escolas nos torna adultos sedentários ou, no mínimo, passivos. Sentar é a posição da espera, do assistir o tempo passar, da não atividade. Sempre que nos encontramos em um novo ambiente, procuramos logo nos sentar. Agora mesmo, ou em qualquer momento do dia, a maioria das pessoas da sua cidade estará sentada. Esta se tornou a posição básica do ser humano.

A formatação das nossas interações

Um segundo exemplo de disciplinarização que a escola promove nos alunos é a formatação dos modos de sentir e interagir com os demais.

A disciplinarização das nossas relações sociais também é um conteúdo que todos aprendemos muito bem e que se encontra submerso no cotidiano escolar, ocultamente, pois não é expresso no currículo formal. Aprendemos a ser individualistas em vez de sermos individuais. Não aprendemos a construir uma coletividade, a trabalhar de forma cooperativa. Os trabalhos em grupo, na grande maioria das escolas, são na verdade apenas a distribuição de tarefas para a execução de um trabalho onde cada um faz a sua parte.

Ou seja, como não desenvolvemos a habilidade de convivência em grupo, a habilidade de organização e mobilização social, como não aprendemos a argumentar e a interagir coletivamente, como não praticamos a cooperação genuína na escola, acabamos atrofiando essas capacidades que seriam muito úteis para a transformação social.

Não desenvolvemos o ato de dialogar, compartilhar visões, ouvir e argumentar com o outro com a finalidade de construir juntos. O desenvolvimento das habilidades de interação interpessoal é completamente ignorado na escola. Ao contrário, todo o tempo somos incentivados a sermos competitivos.

Nesse sentido, nossa atenção se volta sempre para fora, numa eterna comparação entre como nós nos mostramos no mundo e como os outros se mostram. Nessa comparação, nos perdemos de nós mesmos.

Procuramos muito mais sermos alguém idealizado do que descobrirmos em nós mesmos quais são as nossas habilidades e capacidades únicas. Quais são nossos talentos? Como desenvolvê-los? Essas perguntas não fazemos na escola. Tampouco são perguntas feitas nas universidades, pelas pessoas que teorizam sobre a educação. São perguntas totalmente esquecidas.

O papel da escola nesse aspecto é importantíssimo, já que seria o ambiente mais propício para desenvolvermos tais habilidades.

A formatação do pensamento

 

Um terceiro exemplo de disciplinarização que acontece no ambiente escolar é a formatação dos modos de pensar. Durante a vida escolar aprendemos que devemos decorar fórmulas e conceitos para passar nos exames. Essa se torna a única função de se estudar e aprender. O significado do aprendizado torna-se vazio em si, sem significado.

Além disso, perdemos a visão do todo, já que os conteúdos são fragmentados em inúmeras disciplinas.

Essa formatação nos deixa sempre subordinados aos que produzem conhecimento sistematizado, ou seja, que reduzem a realidade a fórmulas e conceitos pré-definidos. Aprendemos tudo sobre o mundo real, através de interpretações e simplificações abstratas, previamente sistematizadas. E, no final, acabamos por confundir o que aprendemos através de conceitos com o que é real e verdadeiro. Tomamos o que nos é imposto pelos livros como se esses conteúdos fossem a própria realidade e não apenas uma interpretação pré-digerida dessa realidade.

Então, educador transdisciplinar, como reinventar a escola e favorecer a formação de indivíduos livres para construir um Mundo Melhor?

Continuamos essa reflexão na seção “Atividades Transdisciplinares”, no texto “O compromisso social da escola transdisciplinar”.

Um grande abraço!

Profa. Patricia Limaverde

Referências:

NASCIMENTO, P. L. . Escola VILA, educação transdisciplinar e transformação social. In: II CONGRESO INTERNACIONAL DE INSTITUCIONES EDUCATIVAS: Maestros Transformando desde las Aulas, 2011, Arequipa – Peru. II CONGRESO INTERNACIONAL DE INSTITUCIONES EDUCATIVAS: Maestros Transformando desde las Aulas, 2011.

Código Florestal na visão transdisciplinar

Olá Professor(a)!

Como vai?

Hoje vamos conversar sobre como a visão Transdisciplinar é necessária para que possamos entender os problemas atuais e saber como tentar resolvê-los.

A questão do Código Florestal é bastante significativa e serve como um grande exemplo para essa discussão.

Você já se perguntou por que a maioria das pessoas não possui uma opinião formada a respeito desse tema?

Pode ser desinteresse, mas como é um tema complexo, que envolve uma multiplicidade de referenciais, ele se torna de difícil entendimento para aqueles que são acostumados a ver a realidade de forma fragmentada.

Nossa sociedade é acostumada a ter uma visão fragmentada de tudo ao redor, e a escola tem um papel importante na formatação desse tipo de visão.

Pra começar, passamos a maior parte das nossas vidas aprendendo conhecimentos fragmentados em disciplinas. Além disso, eles são fornecidos pelos livros didáticos e pelos professores de forma totalmente descontextualizada do mundo ao redor, da comunidade onde a escola está inserida.

Formos formatados a ver e entender as coisas separadamente.

Um problema real e de ampla repercussão é de natureza complexa. Isto significa que para entender esse problema não é possível limitar-se a uma só área de conhecimento.

O problema das alterações que estão sendo propostas ao Código Florestal deve ser entendido a partir de uma teia de conhecimentos multirreferenciais, que abraçam e compõem um conhecimento transdisciplinar, que atravessa as disciplinas e vai além delas.

Para entender toda a ideia relacionada a essa discussão, devemos conversar sobre temas de áreas como economia, política, ecologia, sociologia, geografia, história, matemática, biologia, podendo extrapolar para física, química, e ir mais além de qualquer disciplina, como as ideias de estruturas de poder e dominação, que transcendem qualquer área do conhecimento e, ao mesmo tempo perpassa todas elas.

Não dá para falar sobre o Código Florestal sem pensar na interação de todos esses saberes. Nós, professores, devemos tentar ampliar a visão de nossos alunos, mostrando diferentes pontos de vista a respeito de uma mesma questão. É assim que podemos contribuir na formação crítica de futuros cidadãos capazes de transformar realidades de forma consciente.

Além de termos uma visão fragmentada da questão, ainda temos outro problema instalado em nossas formas de ser no mundo: a apatia. A falta de tomar iniciativa, de mostrar sua opinião. Essas características são também aprendidas na escola. Por isso, professor, é tão importante favorecer o desenvolvimento das discussões em sala, tente fazer com que todos possam ter sua vez de expressar suas ideias.

Você já pensou em abrir uma discussão com seus alunos?

Veja na sessão de dicas, algumas propostas de trabalho que podem ser realizadas com seus alunos, sobre o Código Florestal, proporcionando uma visão ampla e a possibilidade de atuação social.

Um grande abraço! Vamos construindo um mundo melhor a partir da nossa própria ação em sala de aula!!

Profa. Patricia Limaverde Nascimento

Dicas de uma docência transdisciplinar

Os princípios de uma docência transdisciplinar propostos por Rosamaria Arnt* estão bem delineados a seguir. Eles são guias para uma prática docente transformadora:

a. Primeiro princípio: reconhecer o mundo que vivemos

O primeiro princípio da docência transdiciplinar pauta-se na necessidade de reconhecer o mundo em que vivemos, num movimento de integração, compreendendo que somos parte dele através de um gesto de consciência e abertura com vistas a uma ação enraizada em nosso tempo, permitindo a consciência do  significado de fazer parte da sociedade/meio em que vivemos, ressaltando a importância do acoplamento estrutural, enquanto reconhecemos também a possibilidade de interferir no meio, nele desencadeando mudanças. O fazer docente não é descompromissado ou insignificante frente à complexidade da realidade. Será descompromissado e insignificante, porém, se não houver consciência de nosso papel neste contexto. Dessa forma, imerso na realidade complexa, o pensamento transdisciplinar revela-se na tomada de consciência de nosso tempo e de nosso ser no tempo, abrindo-se numa dimensão de cuidado e trabalho, num gesto consciente de abertura.

b. Segundo princípio: encontrar-se com o tempo de ser

A docência transdisciplinar pressupõe uma relação diferente com a própria realidade. Mas também deve  incluir uma relação diferente do docente consigo mesmo, num movimento de auto-conhecimento possibilitando a distinção em relação ao meio mas também a integração consciente a ele. Pressupõe uma racionalidade aberta dialogando com a não-racionalidade, para que vislumbremos o significado de transitar pela zona de não-resistência**, ou o sagrado. Acredito, como descrito por Ken Wilber (2003) que existe um tipo de conhecimento somente possível através da vivência. Este é o conhecimento obtido a partir de um gesto de interrupção, suspendendo-se o automatismo da ação numa reflexão atenta (Varela et al.), reconhecendo que a razão pode combinar-se com a intuição e o amor, permitindo a transgressão para além da lógica indutivo-dedutivo-identitária (Morin, 2000).

c. Terceiro princípio: acolher as partes

Estando em contato com o meio formado pelo outro-sociedade-natureza, estando em contato consigo mesmo, a docência transdisciplinar pressupõe o acolhimento do outro-aluno. É impossível conhecer o todo sem conhecer particularmente as  partes. Assim, outro princípio pressupõe o gesto cuidadoso em direção ao aluno, acolhendo-o em sua inteireza, reconhecendo sua multidimensionalidade.

d. Quarto princípio: criar circunstâncias para a comunhão

É impossível conhecer as partes sem conhecer o todo. Assim, o movimento contínuo nos leva a procurar o conhecimento do todo – grupo de aprendizagem – constituindo-se também um princípio da docência transdisciplinar. O conhecimento do todo tem um intencionalidade, que é proporcionar a comunhão – o estar junto, numa comunidade com objetivos compartilhados e convivência marcada pela aceitação do outro com legitimo outro (Maturana,  1997), formando um sistema social humano.

 

e. Quinto princípio: conhecer através da auto-eco-organização

O quinto princípio da transdisciplinaridade inclui nossa relação com o conhecimento. Em movimento contrário à fragmentação dos saberes, na docência transdisciplinar reconhece-se a relação com o conhecimento numa perspectiva de auto-eco-organização, com diretrizes pautadas no triângulo da vida, ou seja, conheço para ampliar minha relação compreensão de mim mesma, do outro-sociedade, do meio-natureza, num diálogo que visa a manutenção da organização que formamos. O conhecimento é construção-reconstrução-criação-recriação do indivíduo num processo de auto-organização (Moraes, 2003)

f. Sexto princípio: viver em  diálogo – compreender a vida numa perspectiva de paz

Cada um dos princípios acima descritos nos remete a um movimento recursivo e retroativo isoladamente  e em seu conjunto, pois qualquer mudança na visão do nosso tempo interfere na maneira como nos relacionamos conosco mesmos, na  maneira como acolhemos nosso aluno, como intervimos na formação do sistema social e como criamos circunstâncias de aprendizagem. Há uma dança entre os princípios e é a consciência dela que consubstancia a  vivência transdisciplinar em sala de aula. O diálogo entre os princípios, vívidos em nossa ação, têm por base e por fundo a paz, significando que não pode desenvolver-se em isolamento. É através da interação e integração harmoniosa entre eles que podemos pensar em paz como um estado de espírito a ser alcançado, representando o diálogo consciente e ininterrupto com tudo o que existe, num fluxo amoroso que pressupõe compreensão e aceitação, produto da ecologia interior, da ecologia social e da ecologia ambiental, como três ecologias em constante interação (Moraes e Torre, 2004)

* fonte do texto “Princípios da Docência Transdisciplinar”* de Rosamaria de Medeiros Arnt: http://www.ecotrans.pro.br/site/attachments/article/112/Principios%20de%20docencia%20transdisciplinar.pdf

**  A zona de não-resistência é uma região de não racionalização, de transparência absoluta. É a zona da intuição, da compreensão pelo amor, ou, no dizer de Nicolescu (1999), do sagrado. A não-resistência desta zona deve-se, simplesmente, aos limites de nosso corpo e de nossos órgãos dos sentidos, quaisquer que sejam os instrumentos de medida que prolonguem estes órgãos. O sagrado não se opõe à racionalidade. Trata-se, de um terceiro incluído, possibilitando a coexistência dialógica da racionalidade com a não racionalidade.

Princípios da Docência Transdisciplinar

Olá Professor!

Como está?

Nessa edição, apresento a vocês um trecho do artigo “Princípios da Docência Transdisciplinar”* , de Rosamaria de Medeiros Arnt, doutora em Educação Transdisciplinar com pós-doutorado na mesma área, em Barcelona, e membro do Grupo de Pesquisa “Ecologia dos Saberes, Transdisciplinaridade e Educação” (ECOTRANSD).

Nesse artigo, Rosamaria expõe princípios extraídos da Carta da Transdisciplinaridade, que norteiam a ação docente. Com extrema clareza, são guias para o docente que pretende fazer de seu cotidiano em sala de aula uma experiência transformadora.

“Os princípios apresentados entrelaçam-se sendo cada um necessário e, sozinho, insuficiente para a docência transdisciplinar.  Cada princípio desdobra-se em gestos que possibilitam sua operacionalização.”

São eles:

  • reconhecer o mundo em que vivemos, permitindo a consciência  do significado de fazer parte da sociedade/meio;
  • abrir-se para o tempo de ser, buscando a reflexão atenta através da integração das múltiplas  dimensões humanas;
  • acolher/conhecer o outro – o sujeito de nossa ação docente, consciente de que é impossível conhecer as partes sem conhecer o todo;
  • criar um espaço de comunhão para a aprendizagem, consciente de que é impossível conhecer o todo sem conhecer as partes;
  • postura dialógica, mantendo a dança constante entre os quatro princípios anteriores, numa perspectiva recursiva e retroalimentadora.

Em “Dicas de uma docência transdisciplinar”, cada um desses princípios é melhor discriminado, explorando nuances mais claras de uma prática mais efetiva.

Bom desfrute!

Um abraço!

Profa. Patricia Limaverde Nascimento

* fonte do texto “Princípios da Docência Transdisciplinar”* de Rosamaria de Medeiros Arnt: http://www.ecotrans.pro.br/site/attachments/article/112/Principios%20de%20docencia%20transdisciplinar.pdf

Pensamento Complexo

O Pensamento Complexo é um dos pressupostos da Transdisciplinaridade.

Trata-se de uma nova maneira de perceber e pensar o mundo.

mandalaEdgar Morin defende esse pensamento como uma maneira de repensar a realidade e a educação. O Pensamento Complexo é uma maneira de sair de um padrão de pensamento cartesiano, que leva à fragmentação do conhecimento, negligenciando as relações que existem entre esses conhecimentos e que são essenciais à visão significativa do todo.

Ao propagar a ideia de um Pensamento Complexo, apostamos em uma mudança de paradigmas, passando de um paradigma de dominação e poder, de fragmentação, classificação e hierarquização, para um paradigma de cooperação, que valoriza e restabelece as relações, as atitudes significativas.

Para isso, alguns autores sistematizaram os operadores cognitivos do Pensamento Complexo. São operadores do pensamento, ou seja, as características de processamento do pensamento, sob a luz da complexidade.

Humberto Mariotti, Maria Cândida Moraes e Juan Miguel Batalloso são alguns autores que trabalharam na direção de sistematização desses operadores cognitivos.

A seguir, exponho um resumo dos principais operadores cognitivos do Pensamento Complexo:

mandala1- Circularidade

O pensamento linear é um elemento fundante do racionalismo moderno. A partir disso, a ciência moderna evoluiu fragmentando os conhecimentos, as relações, e assim, perdendo a visão do todo.

A Circularidade surge a partir de uma proposta de causalidade recursiva e retroativa, capaz de ir em busca desta interpretação multidimensional e multirreferencial da realidade. Esse operador cognitivo da complexidade perpassa todos os outros, pois é a circularidade o elemento que supera a ordem linear.

2  Autoprodução

A Teoria Geral dos Sistemas e a Teoria da Autopoiese partem de uma dinâmica não-linear de concepção sistêmica da realidade. Nessa perspectiva, os elementos que compõem um sistema estão associados por meio de um acoplamento estrutural. Neste acoplamento, qualquer elemento influencia o sistema e, ao mesmo tempo, é influenciado por ele.

O conhecimento, por exemplo, ao ser construído pelo indivíduo, o modifica internamente.  Indivíduo e meio se influenciam mutuamente em um processo contínuo de produção e auto-produção. Para tanto, este princípio, em ação didática, significa, de acordo com Freire (1997), que ensinar não é sinônimo de transferência de conhecimento, mas ação de produção ativa do estudante em busca da construção da aprendizagem.

dialogia

3  Dialógica

A dialógica transcende a comunicação linear dialética. Vai além da polaridade emissor-receptor. Em um processo de comunicação genuína, os envolvidos estão em uma relação de acoplamento estrutural, modificando-se e modificando aos outros. A dialogia permite o entrechoque de idéias, considerando como essencial a convivência com as contradições, entre estudante-estudante e estudante-professor , em um movimento  espiral de troca e evolução das pessoas e daquilo que está sendo discutido.

4  Hologramático

Também com base na Teoria Geral dos Sistemas, na Física Quântica, na Autopoiese e em outras teorias da “Nova Ciência”, podemos compreender a não-separatividade, tão necessária à compreensão do Pensamento Complexo. Parte e Todo são dimensões de uma mesma realidade. A parte representa o todo e o todo representa cada uma de suas partes.

suj-objeto5  Integração Sujeito-objeto

As cisões entre sujeito e contexto, sujeito e objeto de conhecimento, são operações do pensamento racionalista linear que reduzem e limitam a compreensão da realidade.

Na perspectiva do pensamento complexo, sujeito, objeto, contexto e história de vida são elementos indissociáveis na apreensão da realidade. .

6  Ecologia da Ação

Como os sujeitos estão imbricadamente unidos entre si e ao meio, em um processo de acoplamento mútuo, toda ação implica em uma mudança estrutural de todo o sistema.

A ação de um sujeito repercute de forma não-controlável e não-previsível no meio e no sistema do qual ele faz parte. Essa reverberação afeta não só o meio, mas  o próprio sujeito, de forma recursiva e retroativa.

Leia no link de Dicas, algumas propostas de textos que ilustram essas ideias. Confira!

No link de Vídeos, também há sugestões de pequenos filmes sobre o assunto!

Um grande abraço!

Profa. Patricia Limaverde Nascimento

Transdisciplinaridade e Cidadania Planetária

terraÉ fato que vivemos na atualidade tempos de uma Crise Planetária que afeta todos os setores: economia, meio ambiente, sociedade. Em educação também vivemos uma crise. Crise de diagnósticos, de busca de alternativas, de valores. Processos de alienação e fragmentação assolam instituições, pessoas e práticas.

Os problemas são sistêmicos e exigem contextualização adequada. Qual a origem da Crise Planetária? A não execução de políticas públicas? A desvalorização profissional da docência pela sociedade? O mal-estar do professor? Faltam investimentos? A desvalorização da cultura regional e das tradições do nosso lugar? A degradação ambiental e as mudanças climáticas? A reestruturação da família? A violência? A desigualdade? O medo da mudança?

Provavelmente, todos os itens citados constituem facetas de um todo maior. Algumas delas são por vezes contempladas em programas educacionais, vislumbram-se soluções; no momento seguinte, há uma nova crise.

terraA teia de problemas deve ser diagnosticada em sua inteireza.

O indivíduo faz parte de uma teia complexa que tece com seus semelhantes. Somos todos fios de uma teia ainda maior: o Cosmos.

A educação que pode atender às demandas atuais é uma educação para a consciência planetária, o que implica no respeito a si mesmo, ao outro e ao ambiente; um tipo de educação que, de forma abrangente, contemple o saber acumulado pela humanidade, naturalmente, mas também o conhecer-se a si mesmo; que por um lado, incorpore tecnologias, e por outro, valores e ética ao utilizá-los. Trata-se de uma educação para a cidadania planetária.

terraVisões fragmentárias de mundo, plenamente assumidas a partir de uma concepção cartesiana de pensamento, nos levaram a disciplinarizar completamente o conhecimento, tornando as disciplinas cada vez mais distantes umas das outras, ficando muitas vezes incomunicáveis entre si, negando ao aluno a contextualização, o sentido e a compreensão dos conteúdos. Tempo e espaço também foram cindidos; fragmentaram-se as mentalidades, fragmentou-se o ser.  A cisão entre corpo e mente proposta por Descartes – Penso, logo existo – promoveu a ruptura interior do ser humano que se espelhou no mundo que o cerca.

A escola também se dedicou somente ao ser intelectual que existe no aluno, ignorando ou colocando em último plano seus sentidos, seus sentimentos, seu corpo, seus movimentos, sua história de vida e sua sensorialidade; esta cisão primordial, entre mente e corpo, está na base de muitas outras fragmentações: o lado racional distanciou-se do aspecto intuitivo do ser; a razão separou-se da emoção; a ciência afastou a arte de seu campo de importância e expurgou a espiritualidade para outra esfera que jamais seria associada às suas teorias; a própria ciência tornou-se fragmentada internamente diferenciando-se, primeiramente em ciências humanas, ciências naturais e ciências exatas, e mais tarde, num sem número de especializações disciplinares.

Em “Dicas de Transformações necessárias em educação”, veja uma síntese de tudo o que discutimos nesse blog em todos os textos publicados. Compartilhe e atue em prol de uma cidadania planetária você também!

Um abraço!

Profa. Patricia Limaverde Nascimento